Benditas sejam as crises.

Leandro M. Stocco

8/31/2026

Quem disser que nunca passou por uma crise é porque não deve estar vivo para contar ou porque ainda nem nasceu para falar. Afinal, basta estar no mundo para que em algum momento, dentro ou fora de si, uma crise venha te atravessar. Seja no âmbito existencial, emocional, sentimental, relacional, profissional, financeiro, intelectual ou espiritual, em qualquer área que ela te capture, ela certamente vai te deixar por um tempo em abstinência de paz psíquica, riso e relaxamento.

Quem passa por uma crise dificilmente vai dizer que está feliz, mas ainda que ela pareça mais "maldita" do que "bendita", é ela que nos força a mergulhar no fundo do mais profundo de nós mesmos, para percebermos que o abismo tem escada, que o beco tem saída, e que o fio, as vezes invisível, da confiança, nos mantém amparados na esperança de continuarmos esperançando até que chegue o tão desejado e, às vezes, até implorado momento de nos lançarmos para fora dela.

Fazendo um paralelo metafórico com o título do livro de Rubem Alves, "Ostra Feliz Não Faz Pérola", é necessário que um grão de areia invada a ostra e a incomode a ponto de ela começar a revestir aquele grão com camadas de nácar (madrepérola), que, com o tempo, vão transformar aquele grão de areia incômodo, em uma joia.

De certo modo e em diferentes medidas, as crises fazem isso com a gente: geram incômodo e causam sofrimento, porque desorganizam a maneira pela qual havíamos encontrado até então de lidar com o mundo externo, com o nosso mundo interno, com o outro e com as coisas da vida. As crises põem em dúvida as nossas certezas, derretem as nossas crenças, despem as nossas fantasias e desorganizam a nossa zona de conforto.

Baseado em minha experiência clínica, atendendo muitas pessoas em crise, e forjado pela vida e pelo meu próprio processo de análise pessoal tratando das minhas próprias crises, percebo cada vez mais, e com mais evidências, que o caminho de menor resistência para atravessar uma crise é indo direto por ela, sem desviar dela, aceitando-a e compreendendo-a, até que ela passe e você entenda o que não teria entendido se ela não o tivesse surpreendido.

Na visão da psicanálise, a crise pode ser um momento-chave em que o sujeito se vê implicado a encontrar — ou até precisar inventar, por si só — um novo jeito de lidar com aquilo que Freud chamou de " infelicidade comum da vida".

Como diz Sartre: “Não importa o que a vida fez de você; importa o que você faz com o que a vida fez de você”. Em outras palavras — e na linguagem da ostra —, é fazer do grão de areia a pérola.

As crises trazem sofrimento, mas também possibilitam crescimento. Portanto, ainda que a gente não as deseje, benditas sejam as crises que passam e nos forjam a ser mais fortemente humildes, mais humildemente inteligentes e, quem sabe, mais senhores e senhoras de nós mesmos.

Leandro M. Stocco

São Paulo - SP

27/08/2026

Obs.: texto escrito sem utilização de inteligência artificial.