Quando nada acontece, há um lilagre que não estamos vendo.
Guimarães Rosa, que foi um médico, diplomata, escritor e poeta brasileiro, escreveu essa frase que eu acho bem bonita: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.” Discorrendo por essa trilha mais poética que a frase inspira, normalmente é desconfortante constatarmos que o tempo que leva para que as coisas aconteçam é diferente do tempo que queremos que elas aconteçam. Isso quase sempre escancara uma verdade desconfortável que, embora seja clara, tende a ser obscurecida, negada e lançada pelo nosso ego até os porões da nossa mente. E que verdade é essa? Nós não temos total controle sobre aquilo que nos acontece, sobretudo dentro de nós!
As vezes, a mudança que a gente tanto quer não aparece no tempo que queremos porque, primeiro, ela acontece no invisível, no vazio, no silêncio, na incompletude, na falta e no incompreensível da gente mesmo - e isso leva tempo. É preciso, às vezes - não no sentido de precisão, mas, sim, de preparação - esperar o tempo das coisas, até que a mudança possa se tornar visível, palpável, e é durante esse tempo que normalmente surge a crise — ou, em um aspecto mais religioso, como São João da Cruz chamou, a "noite escura da alma", onde a nossa fé e os nossos limites são testados, as nossas crenças são quebradas e as nossas ilusões são desmanchadas para que nossa mente possa ser forjada.
E nada disso é em vão, porque é justamente nesse tempo que algo mais já estava acontecendo dentro da gente, e que, de repente, brota; algo muda e a gente não sabe bem o que aconteceu. Falando assim, parece até algo misterioso, e, de certa forma, é mesmo. Quando um paciente meu, depois de um percurso bem-sucedido de análise, decide se dar alta, eu não escondo minha satisfação, mas também não sei dizer com exatidão o que foi que eu fiz. Freud, em uma de suas obras, traz uma citação de um cirurgião francês que diz: “Eu fiz os curativos, Deus o curou”.
Então, quando nada acontece, algo já está acontecendo. Nós só não estamos vendo, ainda...
Por fim e fazendo um paralelo com a psicanálise, é comum, às vezes, o sujeito em análise falar que se sente parado no tempo, estagnado no mesmo lugar, girando em círculos em torno da mesma demanda, sem perceber evoluções e clamando por soluções. Mas é aí, precisamente nesse ponto, que normalmente está o ponto de dor, o núcleo duro do ser, protegido por um arsenal de geringonças psíquicas mais comumente chamadas de mecanismos de defesa. E é justamente aí que a análise se presta a oferecer aquilo que ela tem de mais potente: não oferecer nada! A não ser, acolher este que sofre, sustentar junto com ele o seu vazio sem colocar nada nele e permitir que ele fale de si para que, conforme ele vá falando, um novo dizer vá se construindo e dessa nova construção, feita com os tijolos da sua própria história, ele possa ir se esculpindo de dentro para fora para se lançar a encontrar uma maneira de viver e responder às demandas do mundo externo e do seu mundo interno, de uma forma que a vida possa se tornar menos sofrida e mais interessante.
Portanto, essa dimensão do intangível do tempo talvez possa nos convidar a repensar o próprio estatuto da eficácia na psicanálise. Longe das promessas modernas de resoluções rápidas e manuais de felicidade instantânea, a clínica do inconsciente opera em outra lógica - às vezes sem lógica para a nossa própria lógica -, mas necessária para a nossa mudança e transformação.
Leandro M. Stocco
São Paulo - SP
20/00/2026
Obs.: texto escrito sem utilização de inteligência artificial.